Me levantei calmamente tentando me lembrar de onde estava, espreguicei olhando pra fora e ainda estava escuro, algo de agourento naquela paisagem fez meu corpo estremecer. Fechei a cortina fui para o banheiro, escovei os dentes e os cabelos, hoje eles precisavam de uma amaciada, pois, no dia anterior chovera e eu andara em toda aquela chuva que chegou de repente, eu caminhava entre as arvores com meu livro favorito do Harry Potter, Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban. Eu amo Sirius Black e vivendo naquela casa achava que tudo era possível, e porque não poderia receber uma carta para Hogwarts? Me casaria com algum animago megafodástico e seria uma bruxa muito poderosa, mas estava atrasada, tinha mais de onze anos e parecia q essa realidade irreal era somente escrita para justificar que coisas estranhas como a minha vida eram possíveis e plausíveis e isso me confortava, me fazia aceitar melhor toda aquela estranheza.
Olhei para o espelho e sorri, sussurrei baixinho Alohomora, mas ele não se abriu, suspirei e escovei os cabelos finalizando com a prancha recém usada e quentíssima. Minha vida até que era razoavelmente boa, não tinha muita necessidade de contato social e tinha algum (de certa forma), não precisava me preocupar com as contas de casa nem com a dispensa que sempre estava abastecida. Ainda de pijama, desci as escadas com meus chinelos chicoteando a sola dos meus pés. Desci rápido e liguei o computador da copa, coloquei no meu site de musicas favoritos e ativei o playlist, começou a tocar a música enquanto rolava o clipe que eu amava, Pink, Try... É outra coisa de que gosto muito: dança e aquele vídeo ela dava um show de dança contemporânea, era uma artista completa. Fui retirando as coisas dos armários e o café, somente Gabriel tomava café em casa, mas eu gostava da rotina e do aroma, mas não do gosto... Enquanto o café pingava na cafeteira, eu pegava os pães quentes que alguém comprara e colocava numa cesta na mesa, deixava a água com açúcar no fogo para o chá de Xanda (Alexandra) e do Ramon e esquentava o leite para o achocolatado que do Natan e da Marry (Mariana), terminada a rotina, pegava meu pão quentinho com leite gelado e achocolatado e ia pra copa, sentava no chão e usava a mesinha de centro como apoio, enquanto terminava de assistir o clipe agora de era Cold Play cantando Science, uma música q me dava paz, mas já estava no fim, começou a tocar um arranjo de Ricardo Arjona com Gaby Moreno Fuíste tu... Ouvindo desatenta a letra, tive um insight, uma memória que nem sabia se era real, eu chorando desesperada enquanto um rapaz claro de cabelos castanhos me olhava friamente, quando ele abriu a boca para gritar, corri para desligar a musica. Engasguei com o pão e saiu leite até pelo meu nariz quando um sentimento de tristeza bateu sobre meu coração. Vi Marry entrar na cozinha e pegar seu café, em um minuto estava ao meu lado e a memória já tinha acalmado, como se fosse um sonho distante ou a cena de um filme dramático... Ela tinha mania de me abraçar e era o melhor abraço que eu já tinha experimentado, era abraço de quem gostava e eu sentia isso, depois calmamente ela se foi e fiquei um tempo parada olhando ela ir, era linda, branca com cabelos cacheados negros e olhos imensos com longos cílios. Não sei porque a achava tão bonita, o cabelo era um pouco cheio demais, mas ela era natural... completamente natural... A cabeleira indo quase na cintura... e subiu levemente, leve, parecia uma boneca. Voltei para o computador e fui assistir uma serie de Tv online "A feia mais bela", uma comédia que as vezes sentia q se assemelhava a mim, se bem q não me preocupava muito o fato de ser feia e já tinha aceitado a ideia (ali onde não tinha tanto contato com o mundo externo isso não me parecia importante), se bem que queria tanto que existisse algum Aldo Domenzaín em algum lugar que me amasse tanto e q fosse uma pessoa q me amasse independente de aparecia ou qualquer outro tipo de status social... As vezes pensar nisso doía... Mas em contrapartida Alice, Tomaz e tantos outros personagens caricatos me faziam rir bastante... As nuvens estavam se formando mais densas lá fora e parecia q ia cair um pé d'água do caramba... Relâmpagos iluminavam o céu e corri para verificar se todas as janelas do térreo estavam fechadas... hoje não daria pra sair... seria um dia monótono dentro de casa... já havia ouvido os passos ásperos de Xandra e geralmente ela levava o café para o restante na biblioteca no andar de cima... Xandra era forte e parecia uma dessas halterofilistas, grande e femininamente definida, com braços fortes e cara fechada, cabelos crespos longos e grossos, poderia ser ela que usava minha prancha, mas nunca encontrei um fio sequer e acredito q como eu os meus os fios de cabelo dela ficaria em algum lugar... fui para o andar de cima, peguei meu edredom e me aconcheguei no chão, conectei o cpu na tv e continuei assistindo a feia mais bela, fiquei assim até as 9hs, mas comecei a ficar entediada... pensei em jogar nintendo wii, mas não queria matar zumbis... Queria ler algo novo algo diferente, talvez um drama ou um romance policial... Se eu desse um pulinho na biblioteca... Desliguei a tv e me encaminhei a biblioteca ainda com os chinelos chicoteando meus calcanhares... Tentei fazer menos barulho, encontrei com Ramon no caminho, ele me olhou com um quê de indagação, mas não disse nada, as vezes ele revezava com Marry para fazer o almoço... Entrei vagarosamente na biblioteca e 4 pares de olhos de diferentes tons me cercaram com curiosidade, como ninguém falou nada e eu mal ouvia suas vozes, passei direto e fui procurar algo nas prateleiras... Sentia os olhares perfurando minhas costas, mas em pouco tempo fiquei pensativa absorvida pelos livros e títulos... alguns pareciam bem interessantes. Mas um de capa dura e extremamente velho me chamou atenção, parecia coisa de Jane Austen... Um romance... Poderia valer a pena...
Escrito por Lilian Santos
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